OXITOCINA, A MOLÉCULA DO AFETO
Henriqueta Camarotti[1]
Introdução
Neste texto faremos um mergulho na função e importância do hormônio oxitocina na perspectiva da Terapia Transessencial (TTE). Lembrando que esta abordagem tem como objetivo principal o autoconhecimento e a transformação pessoal. No acolhimento, diagnóstico e tratamento do paciente, a TTE se utiliza da espiral transessencial, essência humana compreendida nos seus seis campos: físico-biológico, etérico-vibracional, emocional, mental, consciencial e selfico-espiritual.
Considerando o corpo humano, como essência físico-biológico, primeiro nivel da essência, alguns órgãos possuem propriedades diferenciadas em sua funcionalidade e mantem-se em comunicação intrínseca com o campo etérico-vibracional, segundo nível da essência, e com a espiral transessencial como um todo. A seguir, cito o sistema e estruturas corporais, cujas ligações com outros campos dimensionais da essência são bem evidentes. Tal sistema é denominado neuroendócrino imunológico, focando a glândula pineal, o timo e a hipófise, em especial, a secreção do hormônio oxitocina, que será abordado neste texto.
Um debate histórico…
Historicamente, ao longo dos séculos, tem-se buscado identificar qual o centro da inteligência e da consciência humana, bem como a correlação entre este centro, órgãos e sistemas fisiológicos. O que faz o corpo funcionar? Como a informação que ativa esse funcionamento circula entre as partes componentes do organismo? Que força integradora harmoniza órgãos e sistemas revelando a dinâmica do conjunto?
O debate sobre a localização da mente no corpo tem sido um assunto de grande interesse, seja de médicos e religiosos, ou de sábios e filósofos de todos os tempos e, mais ainda, a partir do Renascimento, início da Idade Moderna, quando esse debate veio à tona com grande amplitude.
Na busca de entender o cerne da consciência, identificam-se basicamente duas correntes: a cardiocêntrica e a cerebrocêntrica ou cefalocêntrica (Engelhardt, 2018). Esse debate perdurou até recentemente, e aos poucos, foi se direcionando para a concepção cerebrocêntrica, trazendo em seu bojo a dúvida sobre se a mente estaria engendrada somente na região cortical do cérebro ou se teria uma comunicação particular com o coração. Esta discussão ainda está em pauta nos dias de hoje!
O organismo humano é uma unidade funcional inteligente e integrada que interage e depende do meio ambiente onde vive. Em tal campo, ele é organizado em grupos de integrações funcionais, algumas vezes pequenos enlaces, outras vezes grandes conexões funcionais, entre as quais a mais relevante para a compreensão da Terapia Transessencial é a integração estreita entre os sistemas neural, endócrino e imunológico, que, em sua forma integrada, é conhecido como sistema neuroendócrino imunológico.
A compreensão desse sistema integrado é fundamental para se entender o psiquismo e a relação entre as emoções e o funcionamento dos subsistemas orgânicos. É em tal campo que se dá uma das explicações para o acomentimento pelo estresse e o sofrimento emocional. Além disso, aí residem as defesas do corpo, através do sistema imunológico, e também a proteção neuroemocional, através da integração entre as vias neurovegetativas e a capacidade de autorregulação corpo-mente. As pesquisas recentes sobre a relação entre as vivências traumáticas e a função neuroemocional têm ampliado e elucidado aspectos relevantes do conhecimento, até então pouco esclarecidos devido a sua enorme complexidade.
Oxitocina, o hormônio do afeto
O hormônio oxitocina ou ocitocina, frequentemente apelidado de “hormônio do amor” ou “molécula da conexão”, secretado pela parte posterior da hipófise, e em quantidades mínimas pelo coração, tem como funções bem conhecidas a liberação do leite materno, a contração uterina no pós-parto e o aumento do vínculo mãe-filho. Produzido no hipotálamo e liberada pela neuro-hipófise, ele atua tanto como hormônio quanto como neurotransmissor no cérebro. Receptores para esse hormônio estão localizados em várias regiões do cérebro, incluindo o córtex sensitivo, o córtex pré-frontal, além das áreas relacionadas ao estresse, como o sistema amigdaliano, o hipotálamo e o complexo ligado à função intestinal. Devido a tais características, a oxitocina tem sido apontada como responsável pela modulação de vários comportamentos, inclusive no estresse, na ingestão de alimento e no comportamento adaptativo dos animais (Lee e cols. 2009; Onaka e Takayanagi, 2019).
Atualmente, com o avanço das pesquisas, a oxitocina, um hormônio não peptídico, que se manteve presente ao longo da evolução dos mamíferos como facilitador da reprodução das espécies, é reconhecido pela sua importante função de modular dos processos interativos, inclusive os emocionais, tanto no ser humano como entre as demais espécies de mamíferos superiores. Esse hormônio tem sido estudado nas condições referentes ao comportamento, ansiedade, memória social, vínculos familiares, sensibilidade emocional, empatia e confiança interpessoal (Kirch, 2015).
A oxitocina seria também responsável pela aproximação entre as pessoas e a formação de vínculos afetivos, estando associada ao prazer sexual, sendo encontrada em maior quantidade durante o orgasmo. As pesquisas indicam que os seres humanos são criaturas intensa e obrigatoriamente sociais, tendo a oxitocina um papel relevante no desenvolvimento da sociabilidade, permitindo uma integração neurobiológica, sensorial, emocional e sociocultural.
A influência da ocitocina no afeto abrange diversos aspectos das relações humanas, como por exemplo, no vínculo mãe-filho (durante a amamentação, facilitando o reconhecimento olfativo e o comportamento de cuidado); formação de pares (liberada durante o toque físico e o contato visual; confiança e empatia (reduz a ativação da amígdala – centro do medo no cérebro -, aumentando a disposição para confiar e melhorando a capacidade de ler expressões emocionais); e, finalmente, redução do estresse (baixando os níveis de cortisol e promovendo uma sensação de calma e bem-estar em contextos sociais positivos).
Segundo Paul ZaK (2012), o nível de oxitocina se eleva quando se percebe uma demonstração de confiança ou quando algo gera empatia e compaixão. Esse hormônio prepara a pessoa para reações adequadas aos fatos e às situações, mesmo quando não se tem clareza emocional e mental, pois acontece em nível inconsciente e neuro-hormonal.
A pesquisadora Ruth Feldman (2012) propõe que o sistema de afiliação humana é construído sobre o modelo do vínculo mãe-bebê. Ela cita alguns exemplos onde a ocitocina funciona como “maestro” desses vínculos: vínculo parental, romântico e de amizade.
A tendência atual dos estudos sobre esse hormônio é verificar sua relação com as doenças mentais e seus respectivos tratamentos, como o autismo, a fobia social, a depressão, a esquizofrenia e o transtorno de personalidade borderline. Estudos em humanos sugerem uma significativa associação entre a ansiedade social e os receptores de membrana à ocitocina (Jones e cols., 2017).
No campo da TTE (Camarotti, 2023), esse hormônio pode ser um elo importante entre a neurofisiologia, os sentimentos e os vínculos interrelacionais. Neste sentido, a oxitocina pode funcionar como uma ponte entre os campos físico-biológico e o emocional, extrapolando para o campo da consciência quando a pessoa consegue compreender a situação na perspectiva afetivo-amorosa mais sublime.
Ainda na perspectiva da Terapia Transessencial, em especial no campo selfico-espiritual, a relação entre a ocitocina e a espiritualidade tem se tornado um campo crescente de investigação na neurociência e na psicologia social (Newberg, 2010; Van Capellen, 2016). A premissa central é que a espiritualidade, muitas vezes manifestada através do sentimento de “conexão com algo maior” ou de “unidade com o Universo”, compartilha bases neurobiológicas com o afeto e a afiliação social, correlacionadas com a liberação desse hormônio.
Em síntese, podemos afirmar que ainda há que se pesquisar com mais profundidade a relação entre o sistema neuroendócrino imunológico, nível físico-biológico da TTE, e todos os demais campos da espiral transessencial, mas já podemos incluir a compreensão dessa relação na avaliação clinica e tratamento dos nossos pacientes.
–
Referências Bibliográficas
CAMAROTTI, H. Autotransformaçã e Cura: erapia Transessencial, uma visão integral do cuidado humano. Brasilia: Flor da Manhã Publicações. 2023
ENGELHARDT, E. Dementia & Neuropsychologia, v. 12, n. 3, p. 321-325, 2018. https://pesquisa. bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-952975?src= similardocs
FELDMAN, R. Oxytocin and social affiliation in humans. Hormones and Behavior, 61(3), 380-391. 2012
JONES, C.; BARRERA, I.; BROTHERS, S.; RING, R.; WAHLESTEDT, C. Oxytocin and social functioning. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 19, n. 2, p. 193-201, 2017.
LEE, H. J.; MACBETH, A. H.; PAGANI, J. H.; YOUNG, W. S. Oxytocin: the great facilitator of life. Progress in Neurobiology, v. 88, n. 2, p. 127-151, 2009.
KIRCH, Peter. Oxytocin in the socioemocional brain: implications for psychiatric disorders. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 17, n. 5, p. 463-476, 2015.
NEWBERG, A. B. Principles of Neurotheology. Farnham: Ashgate Publishing, 2010.
ONAKA, T.; TAKAYANAGI, Y. Role of oxytocin in the control of stress and food intake. Journal of Neuroendocrinology, v. 31, n. 3, p. 12700, 2019. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30786104/
VAN CAPPELEN, P., WAY, B. M., ISGETT, S. F., e FREDRICKSON, B. L. Effects of oxytocin administration on spiritual beliefs and practices. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 11(10), 1579-1587. 2016
ZAK, P. A molécula da moralidade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
[1] Neuropsiquiatra, gestalterapeuta, terapeuta comunitária integrativa, professora do CAFE/CEAM/UnB, criadora da Terapia Transessencial e auto de livros sobre a autotransformação, a resiliência e os sete passos para a autocura.
