Henriqueta Camarotti[1]
“Intuição é o processo de saber o que se sabe.” Ron Schutz
O termo intuição costuma ser tratado com significados diversos e por diferentes linhas de pensamento. Por se tratar de um tema de grande complexidade, torna-se difícil definir referenciais objetivos para conceituá-lo. Neste texto vamos entendê-la no âmbito da Terapia Transessencial (TTE), que aborda a pessoa na perpectiva bio-psico-consciencial-espiritual e que tem com objetivo terapêutico o autoconhecimento e a transformação pessoal.
Antes de entrar na concepção da TTE propriamente dita, vamos situar a intuição em outros campos: na linguagem popular, na psicologia, na psiquiatria e na neurociência
Na linguagem popular, utiliza-se de forma semelhante os termos intuição e instinto, para significar um julgamento ou percepção isenta de conhecimento intelectivo prévio ou de raciocínio. No entanto, o grande diferencial, nos termos da Terapia Transessencial (TTE), está na origem da informação instintiva ou intuitiva. A informação instintiva é inerente às espécies animais, inclusive a humana, decorrente das experiências individuais ou de grupo, do aprendizado transgeracional, da cultura, em estreita relação com o conceito darwinista de evolução. O instinto materno, o instinto de preservação da vida e o instinto da reprodução, são exemplos. Mas o instinto pode receber contribuição dos fenômenos não necessariamente físicos ou materiais como a telepatia, a influência sensorial à distância ou pelo fluxo de energias emocionais e mentais entre indivíduos, como é comum observar entre gêmeos, por exemplo.
Uma linha de estudo entende a intuição como originária dos campos essenciais superiores, como o consciencial e sélfico. Segundo a proposta da ciência noética, sua natureza não está ligada aos acontecimentos intelectivos presentes ou históricos, não tem relação com os fenômenos do tempo e espaço. Intuir significa conectar-se com a noosfera ou com a consciência universal, que abarca no aqui-agora toda a Sabedoria Universal, nutrida que está de toda a experiência cósmica vivenciada pelo Universo desde sua origem.
Esta sabedoria universal, embora disponível, nem sempre é alcançavel pela humanidade atual, que ainda não consegue fazer fluir a consciência individualizada, em sua plenitude, por todos os campos da essência hominal, denominada na TTE de espiral transessencial. Portanto, a intuição, apesar de residir em potencial na espécie humana, não é um fenômeno acionado necessariamente pela decisão racional. Ela se dá em momentos de especial lucidez, na forma de apreensão instantânea de informações que, procedentes do campo consciencial, preenchem a mente e, aí sim, podendo ter influência dos condicionamentos atávicos, culturais e pessoais para se manifestarem e serem expressas de acordo com as experiências já adquiridas.
Na espiral transessencial, a intuição está intrinsecamente relacionada ao campo consciencial; ela acontece fora da linearidade do tempo-espaço, na infinitude do “agora” e na inclusão da totalidade, e sua expressão pode ser influenciada pelas peculiaridades inconscientes e culturais de quem a manifesta. Esse apanágio do campo consciencial deflagra, como que em uma epifania, uma comunicação direta e imediata entre campos de frequência energética diferenciada. Representa a percepção instantânea de uma realidade que unifica o tempo, “captada” de um campo de informação, o que recebe denominações variadas, tais como: noúres para Pietro Ubaldi, noosfera para Teilhard de Chardin, e campos das ideias ou nous para Platão.
Pietro Ubaldi (1886-1972), pensador italiano cuja obra focou na busca de aproximação da Ciência com a Filosofia, trouxe à tona a importância do processo intuitivo como uma faculdade intrínseca à evolução humana. Para esse filósofo, a intuição é a percepção de um real estado atemporal de grande sensibilidade, que capta, registra e transmite mananciais de pensamentos (noúres) e o faz trazendo para a consciência conhecimentos oriundos das criações conscienciais de várias eras da caminhada da humanidade. Trata-se de um fenômeno inspirativo consciente, que resgata em um ínfimo tempo a síntese de imbricados saberes – antigos, novos e vindouros – fundamentados na sabedoria do Universo, em forma de uma rede de infinitas conexões.
A INTUIÇÃO E AS CIÊNCIAS
As ciências tratam a intuição predominantemente como um fenômeno metafísico, e discutem este tema no âmbito de suas reflexões e pesquisas. A seguir estão descritas algumas interpretações da intuição no campo científico.
Segundo a Psicologia, essa faculdade seria uma forma de conhecimento que aproxima informações conscientes e inconscientes. Na classificação quaternária das personalidades, segundo Jung, a intuição aparece como uma das quatros características dominantes além do pensamento, sentimento e sensação. Segundo esse criador da psicologia analítica, a intuição é a capacidade de perceber possibilidades e alternativas de julgamento, de perceber o conjunto de uma realidade, sem perder o contato com uma situação em particular. O tipo intuitivo pode receber influência dos demais tipos, mas tem a intuição como uma característica marcante. Este tipo de personalidade funciona baseado nas experiências e nas suas percepções inconscientes, incluindo imagens, símbolos, arquétipos, inconsciente coletivo, etc. Trata-se de um manancial de muita riqueza pessoal e coletiva de que, na maioria das vezes, a pessoa não tem conhecimento, mas que pode ser acionada de acordo com a motivação espontânea.
A intuição é referida, ordinariamente, como “a capacidade de saber sem saber como se sabe”. Envolve um amplo e ágil sentimento de coerência captado através dos sinais do contexto ou do ambiente. Na visão mais tradicional da neurociência, a intuição está inerentemente associada ao conhecimento pré-estabelecido, informado pela memória implícita e pela aprendizagem.
Além dessas definições tradicionais, existem conceitos que ampliam o âmbito do entendimento da intuição. Alguns autores distinguem intuição de insight e ressaltam que se trata de duas capacidades humanas distintas, altamente complexas, e ainda mal compreendidas. Segundo eles, a intuição é a capacidade de compreender imediatamente, sem raciocínio consciente prévio, em forma de um sentimento “instintivo”, a respeito de uma indagação qualquer; é, também, a capacidade inconsciente de relacionar informações de forma coerente. O insight, por sua vez, é um processo pelo qual surge uma súbita compreensão e resolução de uma dúvida ou problema (eureca!). Frequentemente, significa a capacidade de adquirir precisão e compreensão profunda sobre uma questão e está associado a soluções que vão além dos paradigmas convencionais(21).
Os neurocientistas têm voltado sua atenção para entender a intuição do ponto de vista neurofisiológico e de localização cerebral. Alguns experimentos consideraram o córtex orbitofrontal (OFC)[2] como crucial para os processos intuitivos, mas o seu papel específico ainda permanece em estudo. Horr, Braun e Volz(22), utilizando a magnetoencefalografia (MEG), buscaram clarificar o papel do OFC no processamento intuitivo. Registraram as respostas eletromagnéticas do cérebro dos participantes durante uma tarefa de julgamento de coerência visual. Estudando a comparação com as demais áreas, foi observado que esta área era ativada precocemente e que essa ativação era independente de estímulo físico, dos requisitos da tarefa e do reconhecimento explícito dos estímulos apresentados. Esses resultados sugeriram um papel fundamental do OFC nos primeiros passos da compreensão da intuição, e sugeriram um modelo neural como um ponto de partida promissor para investigações futuras.
Comparando o mecanismo neural da intuição com o do insight, pesquisadores salientam dois aspectos. Primeiramente, os dois fenômenos se movem para direções diferentes no processamento da informação. Enquanto a intuição envolve o julgamento sobre “sim ou não”, o insight está relacionado com “qual” é a solução. No segundo aspecto, há um diferencial entre intuição e insight quando se trata de conhecimento tácito, sendo o processo intuitivo mais propício ao conhecimento.
Nas reflexões derivadas de minha prática clínica, eu percebo que é imperativa a intrínseca associação entre o conhecimento, fruto do esforço intelectual, da dedicação e do investimento pessoal e acadêmico, e a sensibilidade para captar realidades mais “inteiras” ou da totalidade. Como médicos e terapeutas, precisamos treinar nossa percepção intuitiva e a capacidade de interligar o conhecimento adquirido tecnicamente com a percepção da essência do paciente à nossa frente. A oportunidade de valer-se da intuição na prática de atendimento ocorre com frequência e é detectada em momentos de impasse, quando abandonamos o raciocínio protocolar racional e nos entregamos a uma contemplação interior profunda, à espera tranquila de uma resposta. Neste sentido é que trago a história seguinte.
Antônio, homem de 56 anos, de alguma maneira não me passou uma lógica concatenada na sua história de vida. A princípio ele se queixou de ansiedade, tipo pânico, mas negou a existência de qualquer fato gerador de estresse traumático, quer em seu passado recente, na infância ou adolescência. Apesar disso, evidenciava um quadro clínico característico de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT). Escutei com atenção seu relato, e o questionei de forma específica, mas abrangente, em busca de possíveis causas; mas a ampliação e o aprofundamento da anamnese não acrescentaram nada de relevante ao relato inicial. Neste ponto, algo no meu interior me apontou uma fase mais precoce de sua vida, da qual talvez nem tivesse lembranças, como relevante para o diagnóstico. Direcionei então seu relato para que descrevesse sua infância em família, locais onde morou, com quem conviveu, etc. Nesse direcionamento, acredito que tocamos em um ponto melindroso de sua história: o paciente repentinamente entrou em contato com uma forte emoção, como se tivesse contatado uma ferida esquecida, mas não cicatrizada. Aos 4 anos, sua casa foi assaltada com sua família presente. Apavorado, permaneceu escondido atrás de um sofá, paralisado por horas, até que seus pais saíssem do cômodo onde tinham sido trancados pelos ladrões. Aquele acontecimento traumático nunca foi mencionado pela família, com a intenção de protegê-lo. Mas ficou como que trancado em algum “baú” no porão de sua memória inconsciente. E, assim, todo aquele sofrimento ficou ali escondido no esquecimento.
O que esse fato tem a ver com a percepção intuitiva do médico? Explico: tecnicamente, eu poderia ter dado por terminada a anamnese mediante a afirmação insistente do paciente sobre não ter dúvida a respeito da inexistência de história traumática em sua vida. Mas, intuitivamente, algo me induziu, sem que eu mesma soubesse porque, a aprofundar ainda mais a anamnese, no intuito de perscrutar além do seu relato, como se um impulso interior insistisse que havia algo não dito no relato inicial do paciente. Munida dessa lanterna intuitiva, explorei a caverna de sua mente por vários ângulos até que achasse um veio importante nos fatos. Eis que o caso ganhou uma nova luz que deslindou segredos ocultos, com uma enorme colaboração para o tratamento, graças a uma inspiração intuitiva.
Embora a intuição, fluxo de informação proveniente da mente universal, seja fruto da totalidade da função consciência, sua expressão na dimensão do pensamento e da linguagem humana dependem da mente racional. Quanto maior for a capacidade intelectiva mental, potencializada pelo conhecimento e pela amplitude da consciência, maior será a integridade de interpretação da informação intuída. A sua transmissão acontecerá graças ao alargamento e à desobstrução do conduto entre os “receptores” que sintonizam o conhecimento universal (a noosfera, de Teilhard de Chardin) e a mente racional interpretativa.
Nos paradigmas da nova ciência, a intuição e outros fenômenos considerados sensitivos, como a premonição e a telepatia, representam processos de comunicação entre humanos que ocorrem numa sintonia instantânea. Segundo o cosmólogo Nassim Haramein, esses fenômenos podem ocorrer através de “buracos de minhoca” que conectam universos diferentes, transitando via processo in-formacional do micro ao macrocosmo e vice-versa. Estes acontecimentos perpassam a vida cotidiana de muitas pessoas e podem ocorrer através de sonhos, meditação, de exercícios de imaginação ou da simples percepção sutilizada.
Com a evolução da consciência humana, tanto individual como coletiva, ampliam-se as possibilidades de comunicação não-local[3], a capacidade de influenciar a realidade interna ao ser e a do meio externo e, portanto, de criar soluções, alterar paradigmas obsoletos e até mesmo provocar transformações no Planeta e na realidade circundante. Entende-se esse processo como o desenvolvimento de uma consciência coletiva de natureza transcendente, que quando desenvolvida em maior escala, toda humanidade se beneficiará.
Então, na prática clinica, para comprender melhor a intuição e sua função na vida daquele paciente, é importante utilizar os principios da Terapia Transessencial, uma vez que através da compreensão da espiral transessencial o processo intuitivo irá se harmonizando com todos os campos da essência: físico-biológico, etérico-vibracional, emocional, mental, consciencial e selfico-espiritual.
[1] Neuropsiquiatra, mestre em psicologia, gestalt-terapeuta, profa. do CEAM/UnB, terapeuta comunitária integrativa, criadora da Terapia Transessencial.
[2] Localizado no Lobo Frontal; funções 1- tomada de Decisão (ajuda a avaliar os riscos e os benefícios de uma ação), 2- regulação emocional (atua no controle de impulsos. Disfunções nessa área estão frequentemente ligadas a comportamentos impulsivos e dificuldades em processar recompensas), interação social (fundamental para entender normas sociais e ajustar o comportamento de acordo com o ambiente – empatia e julgamento moral.
[3] Não-localidade ou comunicação não-local: significa que a influência ocorre sem que um sinal físico (como luz ou rádio) precise viajar pelo espaço. É uma conexão “imediata”.

